Represa da Saudade

Fernando José da Silva


Eu vi as águas subirem,
Cobrir a velha casa, com recobo de esterco,
O piso de chão batido,
E a pintura a cal.

Eu vi cobrir o curral,
Também o pomar,
Era água que não se acabava,
Era tanta água que nem imaginava,
Que fosse subir até cobrir o Cruzeiro.

Era uma represa de tantas esperanças,
Era esperança de mais energia,
Mais Lazer pra região.
Mas também significava angústia.

Angústia de perder as lembranças de criança,
Porque foto naquela época era mesmo coisa de rico,
Recordações apenas lembranças,
Guardadas na imaginação de uma criança.

Foi-se embora o monjolo, a bica d’água,
O corregozinho no fundo do pomar,
Que se encheu de água, e do pequeno fio,
Virou represa.

Represa que pra mim se chama saudade,
Saudade de tudo que ficou coberto pelas águas,
Porque na verdade minha infância também está,
Bem debaixo dessa represa.

O pico da serra não foi coberto,
Nem a porteira por onde passamos,
Tantas vezes para chegar na casinha ao pé da serra,
A luz de lamparina, era anúncio de uma noite,
Enluarada e cheia de vagalumes.

E agora cada vez que volto,
Nas terras da minha infância,
Fico ali olhando de longe,
Tentando avistar embaixo das águas,
Pra ver se encontro,
O que ficou perdido da minha infância.

Uma busca em vão, porque da infância,
Só mesmo recordação,
Que trago guardada, escondida...
No fundo do coração.
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